domingo, 10 de fevereiro de 2013

Prosa do Desespêro

Fui uma flor por muito tempo, talvez um girassol sempre virado de cara para onde radiasse o calor, num campo aberto onde o vento soprava no sentido mais calmo de cada dia.
Fui um simples grão de areia que viajou com o vento por todo o mundo. Choquei contra os olhos de muitas pessoas para ser sacudido de imediato por elas.
Fui um peixe, atraído pela ísca de uma simples cana de pesca, rodeava a ondulação da superfície da água do meu próprio rio. Tantos que me tentaram pescar, mas nunca me deixei levar com o medo de não ser devolvido ao meu rio.
Fui eu por muito tempo, perdi-me nos outros, tornei-me outro também. Tanto tempo que gastei, falando, comentando, criticando, evitando tudo quando, no fim, tudo veio a mim.
Já fui original, diferente dos outros. Agora, sou diferente de mim mesmo e pior que os restantes. Sou apenas um outro que tanto falava do que acontecia a outrém que acabou por me acontecer o mesmo.
Neste momento, estaria eu a falar mal de eu outro, enquanto que os restantes me estariam pontapeando e massacrando, atormentando e abusando, e os outros estariam me apoiando.
Já mandei os outros para longe de mim, com medo que me dessem problemas, acabei por ter os meus problemas e não posso contar comigo nem com os outros, quanto menos com os restantes.
Já fui inteiro, agora sinto-me completamente quebrado e roto no meio do chão, olhando o mundo andar à minha volta e a evoluir.
Já quis ser sempre igual, sempre me disseram que tinha que crescer, sempre disse que nunca ia mudar. Acabei por mudar sem saber, apenas aconteceu, e quando cresci não me avisaram que o mundo ia ser assim tão grande e injusto. O meu mundo deixou de ser eu e os restantes e passou a ser eu, o outro, os outros e os restantes.
Já fui bom, agora sou mau. Deixei a inocência escapar e a minha incosciência apoderou-se.
Acho que, quando cresci, não foi de cabeça mas sim de coração, porque deixei de pensar tanto nas minhas ações e tudo quanto faço tem sido por instinto. Tudo tem gerado confusão, o mundo continua a andar à minha volta.
Enquanto eu, sempre achei que os outros se deixavam levar pelo que viam e que isso nunca seria possível para uma pessoa do meu intelecto. Pensei corretamente, apenas não tinha conhecimento do quanto o meu coração reage com o que os meus olhos vêem.
Enquanto outro, choro e espero que tudo passe, fico quedo no desespêro de que tudo o que era meu volte para mim, espero até ter aquilo que nunca foi meu mas que o deseje ser.
Apenas nunca pensei que sentimentos fossem tão fortes que fossem capazes de mecher tanto com o meu corpo todo, toda a minha pessoa tanto física como psicológica.
Sempre fui uma pessoa de muitas palavras, porque usava mais o crânio. Agora tou completamente apoderado e impotente perante o que enfrento e meu coração fala por si.
Nunca fui um deprimido, também nunca fui cómico para fazer com que nunca estivesse deprimido, e o que sinto não é depressão, mas sim desespêro.
Só de pensar que já tive tudo, perto ou longe, mas sempre tive algo. E agora, não o tenho. Não tenho nada, nem a felicidade de o ver feliz.
O meu mundo já foi eu, o outro, os outros, os restantes e ele. Agora não o vejo, fiquei preso.
É engraçado como um outro como eu se calhar nem teve tanta dificuldade em perceber o seu coração. Diria que sinto saudade, a um ponto elevado.
Sinto... eu sinto, mas não sei o quê. Sei que são os seus lábios e a sua presença. Talvez também a sua voz, o seu olhar e o seu respirar. Sinto isso tudo, mas fico no desespêro de tentar perceber porquê.
Porquê ele? Porquê isto que sinto? Porquê a mim?
E o mundo continua a andar à minha volta...

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